27 de abr. de 2026

Regresso Ao Entardecer

 


Estava num café, em boa companhia, quando a cápsula Orion pousou («splashdown») nas águas do Pacífico. Por mero esquecimento, tanto meu como dos meus companheiros, quero crer, não comentamos acerca do assunto. Entre goladas de café e comilanças, conversas saudosistas e bem-humoradas, meu espírito estava atento ao horário previsto em que os viajantes retornariam e, torcia para que o retorno corresse bem. Só quando cheguei em casa mais tarde, me inteirei do regresso da Orion por meio dos noticiários.

Normalmente sou um alienado em se tratando de notícias. O que sei, é sempre através das redes sociais; foi como soube da Artemis II e do fato de ser a primeira viagem espacial tripulada rumo à Lua em pouco mais de 50 anos. E o fiquei sabendo somente dois dias depois do lançamento realizado em Cabo Canaveral.

Eles amerrissaram ao final do dia 10 de abril, às 17:07 horas (20:07 no horário de Brasília), em segurança. O céu no Pacífico ainda não havia escurecido e exibia um lindo entardecer.

Toda aquela aura romântica que estava sobre os velhos astronautas do Programa Apollo, agora também pairava sobre os quatro tripulantes da Artemis II. Eles que foram dentro da cápsula Orion rumo ao espaço profundo. Superaram o trágico e longo percurso da Apollo 13 (400.171 km), isto é, a Artemis II distanciou-se cerca de 406.700 km da Terra. E, com a atual tecnologia, foi possível acompanhar em tempo real cada quilômetro e ter acesso a uma gama de informações e registros fotográficos impressionantes, que, inevitavelmente, despertava em mim um assombro científico e existencial. Haviam câmeras instaladas em diversas partes da cápsula Orion; sem falar na câmera Nikon e um iPhone pelos quais os tripulantes puderam fazer fotos e filmagens maravilhosas da Terra e da nossa Lua (além de um belo eclipse solar visto do espaço, um evento inédito para olhos humanos).

No terceiro dia de viagem, no dia 3 de abril, o astronauta Reid Wiseman tirou o que talvez seja o registro fotográfico mais bonito da missão. Uma foto da Terra em toda sua majestade, à noite, iluminada pela lua; a África destacando-se quase ao centro (com o deserto do Saara bem escancarado), e um lindo azulão de mar do Oceano Atlântico. A parte inferior do continente africano está obscurecido por nuvens, e do outro lado, seu vizinho, a América do Sul, pode ser timidamente vislumbrado. Aumentando a imagem, você pode ver com melhor nitidez uma luz zodiacal no extremo direito inferior do planeta. E nos dois polos, parecendo ambas um rio de esmeraldas correndo nas bordas do planeta, auroras esverdeadas. Tudo realçando a beleza de um lugar que já é lindo o suficiente. Tal é a foto tirada de nosso planeta Terra, chamada «Hello, World».

E sim, ela pode ser considerada como uma atualização de outra captura semelhante, feita há cerca de 50 anos atrás pelo astronauta Harrison Schmitt, tripulante da Apollo 17 — exatamente a última missão da NASA a ir para a Lua. Esta foto, chamada «The Blue Marble», revela a Terra com uma perspectiva que pode-se dizer quase idêntica, porém desta vez o nosso planeta exibe desde o Mar Mediterrâneo, passando pela África, até um Polo Sul coberto por nuvens, e, muito do Oceano Índico.

«Hello, World», Reid Wiseman (Artemis II).

«The Blue Marble», Harrison Schmitt (Apollo 17).


Ver a foto de Reid Wiseman divulgada pela NASA me fez olhar este imenso lar e esquecer todas as infelicidades que andam acontecendo aqui embaixo, como se estivesse com aqueles quatro tripulantes rumando para longe de tudo. Parecia estar desfrutando da bonança após uma tempestade, mas ao mesmo tempo, olhando de longe para a minha terra natal, podia sentir um imenso carinho por ela, e pensar que não conseguia repudiá-la.

Isso mostra o quanto a beleza do nosso planeta e o terno abrigo que nos proporciona, tem forte persuasão sobre nós, seus habitantes. 

Jim Lovell, astronauta do programa Apollo em duas ocasiões, a Apollo 8 (cuja missão fora semelhante a Artemis II) e a Apollo 13, não poderia ter se expressado melhor sobre o nosso planeta, visto assim de longe. Lovell disse que a Terra parecia um enfeite de árvore de Natal azul, pendurado sobre a infinita vastidão escura do espaço sideral.

10 de abr. de 2026

Ouvir Música Em Tempos de Streaming

 


Não sei se tenho algum pensamento formado sobre o assunto. Só sei que li o texto do Caio Dias, o bom «A Música Não Importa Mais», e fiquei satisfeito com tudo que é dito ali. Em resumo, a música não é mais apreciada, e nas palavras do Caio, não passa de «penduricalho» do cotidiano.

O raciocínio do Caio Dias é coisa semelhante ao que costuma ser dito pelo crítico e jornalista musical Régis Tadeu, que costumo acompanhar no YT — principalmente quando fala de música. O Régis costuma falar que a música é hoje em dia trilha sonora para quando se está fazendo alguma coisa, tipo limpar a casa ou mesmo durante o seu trabalho.

Sou uma cria dos anos 1990. Vim de uma cultura de discos, tanto CD´s como LP´s; o meu pai sempre foi um entusiasmado apreciador de música e cresci rodeado de seus discos. Na sua coleção havia desde Jovem Guarda até orquestras como a do Billy Jules e a Tabajara; desde o Bolero de décadas remotas ao Pop e Rock anglófonos dos anos 1960 e 1970; da música romântica — nacional e internacional — dos anos 1980 ao Samba poético do Noite Ilustrada e dos Demônios da Garôa.

Essencialmente sempre fui um roqueiro, que, evoluiu de um entusiasmado metaleiro para um apreciador do Blues-Rock britânico dos anos 1970. Mas esse gosto pelo Rock/Heavy Metal vêm da influência de meu irmão mais velho sobre mim — ele que é um metaleiro fervoroso até os dias de hoje. Meu irmão tinha muitos discos também, e, é natural que tenha conhecido muitas bandas de sua parte, inclusive muitas que aprecio hoje até bem mais do que ele próprio.

Mas foi o meu pai quem, ironicamente, me introduziu ao Rock ´n´ Roll. E pensar que das músicas que meu irmão e (mais tarde) eu ouvíamos, nosso pai costumava dizer «isso é só barulho!». Por outro lado, desde que me entendo por gente, meu pai tinha em seu acervo as lendárias coletâneas vermelha e azul dos The Beatles, coletâneas quase perfeitas e cujo repertório, nas edições remix de 2023, foi melhorado até certo ponto. São as melhores introduções ao quarteto de Liverpool que se poderia oferecer a alguém. Fora esses, tinha também o Please Please Me, o disco de estreia deles, o que dava a uma criança como eu uma experiência extra com a banda.

Houve ainda outra banda que há quem diga ter sido uma daquelas que tentaram tomar o lugar dos The Beatles após seu fim. Tinha um único disco do Creedence Clearwater Revival na coleção do meu pai, era o Pendulum. Disco esse que continha o maior hit da banda: «Have You Ever Seen The Rain?».

Da parte da minha mãe, houve outras, como o A-Ha. Lembro de uma coletânea esquisita, da Som Livre, que minha mãe ganhara no Natal, da minha tia; depois se tornara frequente minha mãe meio que me acordar ao som de «Stay on These Roads», canção que abria a coletânea. Achava esse disco, que como disse, era uma coletânea, particularmente esquisito porque não tinha «Take on Me», que, tudo bem, é a música mais fraca do A-Ha, mas é sua música mais conhecida e marcante.

Minha mãe me apresentou ainda ao ABBA, The Carpenters, e muito depois ao ótimo James Taylor.

O resto das coisas fui conhecendo depois, pelas próprias pernas.

Contei toda essa história querendo dizer ter vindo de uma cultura de discos e, por isso, consumo os streamings de música de um jeito diferente da maioria. Gosto de ouvir os álbuns. A maioria, pelo que percebo, deixa-se levar pelas playlists. Não tenho nada contra as playlists, só não tenho predileção por elas.

Recentemente um chapa me disse que esse negócio de ouvir álbuns é uma modinha atual, e, logo percebi que ele estava encarcerado num pensamento bastante equivocado. Sempre tive a impressão que a preferência por playlists, na audição de música em «tempos digitais», é uma tendência desde que começamos a sair dos discos para os bits — desde os tempos da pirataria na primeira década dos anos 2000 — isso segundo minhas lembranças.

Quando apareceram os serviços de streaming, logo aderi aos spotify´s da vida. Ter álbuns incontáveis, discografias inteiras de diversas bandas, instantaneamente disponíveis por uma quantia relativamente simbólica... Não pensei duas vezes. Infelizmente os meus CD´s foram se perdendo e fiquei só com uns poucos, todos comprados nos últimos anos em que encontrei CD´s numa loja.

E nas minhas boas horas de ouvinte de música, penso o quão faz falta o ritual de sentar-se numa cadeira de balanço ou poltrona, posta próxima ao sistema de som; ligar a aparelhagem, abrir a bandeja, colocar o disco na bandeja, fechar a bandeja e finalmente apertar o play. Isso foi só o início. O resto é a absorção daquela energia maravilhosa, a eletricidade, as vibrações, os grooves, a fixação; olhar os encartes, ver a ficha técnica, criar uma relação com o artista.

Nos dias atuais não tenho planos de retomar este ritual, e não é por não querer, mas por não ser ainda o momento oportuno. Mas sempre digo, quando vou ouvir música, que preciso reviver esse ritual, o jeito antigo de se ouvir música, o espírito antigo de um ouvinte de música do passado. Sem a frivolidade estimulada pela facilidade que a tecnologia proporciona.

E olhe que não estou nem considerando as distrações eventuais que um smartphone pode oferecer.

Essas «horas maravilhosas» podem ser melhores ainda — semelhantes ao que eram noutras épocas.