Estava num café, em boa companhia, quando a cápsula Orion pousou («splashdown») nas águas do Pacífico. Por mero esquecimento, tanto meu como dos meus companheiros, quero crer, não comentamos acerca do assunto. Entre goladas de café e comilanças, conversas saudosistas e bem-humoradas, meu espírito estava atento ao horário previsto em que os viajantes retornariam e, torcia para que o retorno corresse bem. Só quando cheguei em casa mais tarde, me inteirei do regresso da Orion por meio dos noticiários.
Normalmente sou um alienado em se tratando de notícias. O que sei, é sempre através das redes sociais; foi como soube da Artemis II e do fato de ser a primeira viagem espacial tripulada rumo à Lua em pouco mais de 50 anos. E o fiquei sabendo somente dois dias depois do lançamento realizado em Cabo Canaveral.
Eles amerrissaram ao final do dia 10 de abril, às 17:07 horas (20:07 no horário de Brasília), em segurança. O céu no Pacífico ainda não havia escurecido e exibia um lindo entardecer.
Toda aquela aura romântica que estava sobre os velhos astronautas do Programa Apollo, agora também pairava sobre os quatro tripulantes da Artemis II. Eles que foram dentro da cápsula Orion rumo ao espaço profundo. Superaram o trágico e longo percurso da Apollo 13 (400.171 km), isto é, a Artemis II distanciou-se cerca de 406.700 km da Terra. E, com a atual tecnologia, foi possível acompanhar em tempo real cada quilômetro e ter acesso a uma gama de informações e registros fotográficos impressionantes, que, inevitavelmente, despertava em mim um assombro científico e existencial. Haviam câmeras instaladas em diversas partes da cápsula Orion; sem falar na câmera Nikon e um iPhone pelos quais os tripulantes puderam fazer fotos e filmagens maravilhosas da Terra e da nossa Lua (além de um belo eclipse solar visto do espaço, um evento inédito para olhos humanos).
No terceiro dia de viagem, no dia 3 de abril, o astronauta Reid Wiseman tirou o que talvez seja o registro fotográfico mais bonito da missão. Uma foto da Terra em toda sua majestade, à noite, iluminada pela lua; a África destacando-se quase ao centro (com o deserto do Saara bem escancarado), e um lindo azulão de mar do Oceano Atlântico. A parte inferior do continente africano está obscurecido por nuvens, e do outro lado, seu vizinho, a América do Sul, pode ser timidamente vislumbrado. Aumentando a imagem, você pode ver com melhor nitidez uma luz zodiacal no extremo direito inferior do planeta. E nos dois polos, parecendo ambas um rio de esmeraldas correndo nas bordas do planeta, auroras esverdeadas. Tudo realçando a beleza de um lugar que já é lindo o suficiente. Tal é a foto tirada de nosso planeta Terra, chamada «Hello, World».
E sim, ela pode ser considerada como uma atualização de outra captura semelhante, feita há cerca de 50 anos atrás pelo astronauta Harrison Schmitt, tripulante da Apollo 17 — exatamente a última missão da NASA a ir para a Lua. Esta foto, chamada «The Blue Marble», revela a Terra com uma perspectiva que pode-se dizer quase idêntica, porém desta vez o nosso planeta exibe desde o Mar Mediterrâneo, passando pela África, até um Polo Sul coberto por nuvens, e, muito do Oceano Índico.
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| «Hello, World», Reid Wiseman (Artemis II). |
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| «The Blue Marble», Harrison Schmitt (Apollo 17). |
Ver a foto de Reid Wiseman divulgada pela NASA me fez olhar este imenso lar e esquecer todas as infelicidades que andam acontecendo aqui embaixo, como se estivesse com aqueles quatro tripulantes rumando para longe de tudo. Parecia estar desfrutando da bonança após uma tempestade, mas ao mesmo tempo, olhando de longe para a minha terra natal, podia sentir um imenso carinho por ela, e pensar que não conseguia repudiá-la.
Isso mostra o quanto a beleza do nosso planeta e o terno abrigo que nos proporciona, tem forte persuasão sobre nós, seus habitantes.
Jim Lovell, astronauta do programa Apollo em duas ocasiões, a Apollo 8 (cuja missão fora semelhante a Artemis II) e a Apollo 13, não poderia ter se expressado melhor sobre o nosso planeta, visto assim de longe. Lovell disse que a Terra parecia um enfeite de árvore de Natal azul, pendurado sobre a infinita vastidão escura do espaço sideral.



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