Não sei se tenho algum pensamento formado sobre o assunto. Só sei que li o texto do Caio Dias, o bom «A Música Não Importa Mais», e fiquei satisfeito com tudo que é dito ali. Em resumo, a música não é mais apreciada, e nas palavras do Caio, não passa de «penduricalho» do cotidiano.
O raciocínio do Caio Dias é coisa semelhante ao que costuma ser dito pelo crítico e jornalista musical Régis Tadeu, que costumo acompanhar no YT — principalmente quando fala de música. O Régis costuma falar que a música é hoje em dia trilha sonora para quando se está fazendo alguma coisa, tipo limpar a casa ou mesmo durante o seu trabalho.
Sou uma cria dos anos 1990. Vim de uma cultura de discos, tanto CD´s como LP´s; o meu pai sempre foi um entusiasmado apreciador de música e cresci rodeado de seus discos. Na sua coleção havia desde Jovem Guarda até orquestras como a do Billy Jules e a Tabajara; desde o Bolero de décadas remotas ao Pop e Rock anglófonos dos anos 1960 e 1970; da música romântica — nacional e internacional — dos anos 1980 ao Samba poético do Noite Ilustrada e dos Demônios da Garôa.
Essencialmente sempre fui um roqueiro, que, evoluiu de um entusiasmado metaleiro para um apreciador do Blues-Rock britânico dos anos 1970. Mas esse gosto pelo Rock/Heavy Metal vêm da influência de meu irmão mais velho sobre mim — ele que é um metaleiro fervoroso até os dias de hoje. Meu irmão tinha muitos discos também, e, é natural que tenha conhecido muitas bandas de sua parte, inclusive muitas que aprecio hoje até bem mais do que ele próprio.
Mas foi o meu pai quem, ironicamente, me introduziu ao Rock ´n´ Roll. E pensar que das músicas que meu irmão e (mais tarde) eu ouvíamos, nosso pai costumava dizer «isso é só barulho!». Por outro lado, desde que me entendo por gente, meu pai tinha em seu acervo as lendárias coletâneas vermelha e azul dos The Beatles, coletâneas quase perfeitas e cujo repertório, nas edições remix de 2023, foi melhorado até certo ponto. São as melhores introduções ao quarteto de Liverpool que se poderia oferecer a alguém. Fora esses, tinha também o Please Please Me, o disco de estreia deles, o que dava a uma criança como eu uma experiência extra com a banda.
Houve ainda outra banda que há quem diga ter sido uma daquelas que tentaram tomar o lugar dos The Beatles após seu fim. Tinha um único disco do Creedence Clearwater Revival na coleção do meu pai, era o Pendulum. Disco esse que continha o maior hit da banda: «Have You Ever Seen The Rain?».
Da parte da minha mãe, houve outras, como o A-Ha. Lembro de uma coletânea esquisita, da Som Livre, que minha mãe ganhara no Natal, da minha tia; depois se tornara frequente minha mãe meio que me acordar ao som de «Stay on These Roads», canção que abria a coletânea. Achava esse disco, que como disse, era uma coletânea, particularmente esquisito porque não tinha «Take on Me», que, tudo bem, é a música mais fraca do A-Ha, mas é sua música mais conhecida e marcante.
Minha mãe me apresentou ainda ao ABBA, The Carpenters, e muito depois ao ótimo James Taylor.
O resto das coisas fui conhecendo depois, pelas próprias pernas.
Contei toda essa história querendo dizer ter vindo de uma cultura de discos e, por isso, consumo os streamings de música de um jeito diferente da maioria. Gosto de ouvir os álbuns. A maioria, pelo que percebo, deixa-se levar pelas playlists. Não tenho nada contra as playlists, só não tenho predileção por elas.
Recentemente um chapa me disse que esse negócio de ouvir álbuns é uma modinha atual, e, logo percebi que ele estava encarcerado num pensamento bastante equivocado. Sempre tive a impressão que a preferência por playlists, na audição de música em «tempos digitais», é uma tendência desde que começamos a sair dos discos para os bits — desde os tempos da pirataria na primeira década dos anos 2000 — isso segundo minhas lembranças.
Quando apareceram os serviços de streaming, logo aderi aos spotify´s da vida. Ter álbuns incontáveis, discografias inteiras de diversas bandas, instantaneamente disponíveis por uma quantia relativamente simbólica... Não pensei duas vezes. Infelizmente os meus CD´s foram se perdendo e fiquei só com uns poucos, todos comprados nos últimos anos em que encontrei CD´s numa loja.
E nas minhas boas horas de ouvinte de música, penso o quão faz falta o ritual de sentar-se numa cadeira de balanço ou poltrona, posta próxima ao sistema de som; ligar a aparelhagem, abrir a bandeja, colocar o disco na bandeja, fechar a bandeja e finalmente apertar o play. Isso foi só o início. O resto é a absorção daquela energia maravilhosa, a eletricidade, as vibrações, os grooves, a fixação; olhar os encartes, ver a ficha técnica, criar uma relação com o artista.
Nos dias atuais não tenho planos de retomar este ritual, e não é por não querer, mas por não ser ainda o momento oportuno. Mas sempre digo, quando vou ouvir música, que preciso reviver esse ritual, o jeito antigo de se ouvir música, o espírito antigo de um ouvinte de música do passado. Sem a frivolidade estimulada pela facilidade que a tecnologia proporciona.
E olhe que não estou nem considerando as distrações eventuais que um smartphone pode oferecer.
Essas «horas maravilhosas» podem ser melhores ainda — semelhantes ao que eram noutras épocas.
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