13 de ago. de 2026

Felicidade Conjugal

Estou lendo «Felicidade Conjugal», de Tolstói. É daqueles livros cuja leitura pode levar uma, duas tardes. Terminei a primeira parte (de duas) que a novela tem. E me fez pensar em «A Fera Na Selva», de Henry James. Me fez pensar no mote da história, o justo instante em que uma pessoa percebe ter deixado passar algo valioso na vida, depois de tanto tempo bem diante dos seus olhos, bem ao alcance de suas mãos.


Macha e Sierguiéi ensaiaram, na prática, repetir o triste destino daquele casal de «A Fera Na Selva», mas, dentro de si, suas almas, apesar dos receios, não puderam evitar apaixonar-se e aprender a amar-se.

12 de ago. de 2026

Cartas A Théo

 


As cartas de Van Gogh ao irmão podem ser tão reveladoras quanto as Odes de Horácio ou os romances de José Geraldo Vieira o são acerca das idiossincrasias de cada um.


No início da correspondência, tem-se um Van Gogh perdido, sem rumo na vida. Ele era filho de pastor; é natural que tenha tentado seguir os passos do pai na Obra de Deus como missionário, o que o leva às minas de carvão da Bélgica. Mas os seus «mestres» o desencorajavam: não o consideravam um bom orador, habilidade fundamental, segundo eles, para exercer tal função.


A partir do instante em que toma consciência de sua vocação para a arte e passa a trabalhar para aperfeiçoar esse dom, um novo Van Gogh se mostra. Mais decidido e seguro, mais animado e em paz consigo mesmo. O que faz o leitor pensar em quão desgraçado é aquele que não sabe o que fazer de si.

20 de jul. de 2026

Ouvindo John Lennon: Um Dia (De Cada Vez)

 


Sei que os beatlemaníacos fazem um curioso exercício de imaginação. Eles tomam os respectivos discos que os quatro lançaram imediatamente após o fim da banda, e então partindo do repertório de cada disco, catam algumas músicas as quais eles intuem que poderiam estar num suposto álbum dos The Beatles, caso não tivesse acontecido a separação (ou quem sabe decidissem voltar).

Também sei que houve uma conversa entre Paul e John — salvo engano foi gravada — onde Paul tenta acordar quantas músicas cada membro da banda poderia pôr num futuro trabalho inédito do grupo, o qual nunca viria a acontecer. O esquema era: 4 músicas de Paul; 4 músicas de John; 4 músicas de George; e 2 músicas de Ringo (se ele quisesse).

Talvez os beatlemaníacos sigam esse esquema na escolha do repertório do que seria um disco da banda nos anos 1970.

Nunca ouvi um disco sequer do Ringo Starr; mal ouvi o All Things Must Pass, o clássico disco triplo de estreia do George Harrison. O Paul McCartney é o meu beatle favorito, e nos seus discos solo, são onde mais percebo ecos beatlelescos do que em qualquer disco solo de um outro beatle. Já John Lennon, após o fim da banda, lançou também discos formidáveis: vide o John Lennon/Plastic Ono Band e o lendário Imagine.

Nesses discos de John Lennon que mencionei, não ouço nada que me remeta aos The Beatles. Não que os ouça com este intuito, porém é inevitável... Mas, em 1973, um John Lennon caminhando numa direção que o levava para longe de sua amada Yoko acabou levando-o, sutilmente, a caminhar musicalmente em direção ao som do Quarteto de Liverpool.

Posso estar forçando a barra, mas acontece que a sensação ao ouvir tais ecos beatlelescos, como costumo chamar, ou seja, qualquer melodia e harmonia, sons que me remetam ao que seria feito num disco dos The Beatles por um beatle. Acontece que a sensação é muito forte, empolgante, é como uma nostalgia de algo que nunca vivi.

Uma tarde dessas fiquei maravilhado com a audição de um disco que nunca ouvira antes: era o Mind Games, de John Lennon, lançado em 1973, mais precisamente em “One Day (At a Time) e em “I’m The Greatest (canção bônus que só aparece na edição remixada). Nestas duas canções tive mais uma vez, e pela primeira vez num disco de John Lennon, a sensação de ouvir esse eco beatlelesco, que noutras ocasiões tanto ouvi nos discos do Paul McCartney.

Não ficarei aqui falando de cada música de Mind Games, nem destacando música tal e música tal do disco.

Mas o que gostaria de dizer é, não sei qual o critério exato adotado pelos beatlemanícos a fim de sintetizar o repertório de um hipotético álbum da banda após os derradeiros Let It Be e Abbey Road. Quanto a mim, após certa quantidade de audições dos discos da maior banda de todos os tempos, pude entre tantas outras coisas perceber o senso de humor que a banda costumava exibir em certas músicas.

Nem falo tanto em termos de letra, falo em termos musicais mesmo. Algumas músicas dos The Beatles parecem uma brincadeira: “Oh! Darling, “Rocky Raccoon, Fixing A Hole, “When I’m Sixty Four, “Ob-La-Di Ob-La-Da, só para citar algumas. Tais músicas, diga-se de passagem, são de sua fase adulta; começando a partir de 1966 com o disco intitulado RevolverE, olhando esta breve lista, dou-me agora conta de que praticamente todas as canções mencionadas são do Paul...

Na verdade, do Rubber Soul para trás, não recordo de nenhuma música que me dê aquele sentimento de bom humor e brincadeira. Talvez os The Beatles, havendo deixado de levar tudo isso muito a sério, ao mesmo tempo nunca levaram a música tão a sério!

27 de abr. de 2026

Regresso Ao Entardecer

 


Estava num café, em boa companhia, quando a cápsula Orion pousou («splashdown») nas águas do Pacífico. Por mero esquecimento, tanto meu como dos meus companheiros, quero crer, não comentamos acerca do assunto. Entre goladas de café e comilanças, conversas saudosistas e bem-humoradas, meu espírito estava atento ao horário previsto em que os viajantes retornariam e, torcia para que o retorno corresse bem. Só quando cheguei em casa mais tarde, me inteirei do regresso da Orion por meio dos noticiários.

Normalmente sou um alienado em se tratando de notícias. O que sei, é sempre através das redes sociais; foi como soube da Artemis II e do fato de ser a primeira viagem espacial tripulada rumo à Lua em pouco mais de 50 anos. E o fiquei sabendo somente dois dias depois do lançamento realizado em Cabo Canaveral.

Eles amerrissaram ao final do dia 10 de abril, às 17:07 horas (20:07 no horário de Brasília), em segurança. O céu no Pacífico ainda não havia escurecido e exibia um lindo entardecer.

Toda aquela aura romântica que estava sobre os velhos astronautas do Programa Apollo, agora também pairava sobre os quatro tripulantes da Artemis II. Eles que foram dentro da cápsula Orion rumo ao espaço profundo. Superaram o trágico e longo percurso da Apollo 13 (400.171 km), isto é, a Artemis II distanciou-se cerca de 406.700 km da Terra. E, com a atual tecnologia, foi possível acompanhar em tempo real cada quilômetro e ter acesso a uma gama de informações e registros fotográficos impressionantes, que, inevitavelmente, despertava em mim um assombro científico e existencial. Haviam câmeras instaladas em diversas partes da cápsula Orion; sem falar na câmera Nikon e um iPhone pelos quais os tripulantes puderam fazer fotos e filmagens maravilhosas da Terra e da nossa Lua (além de um belo eclipse solar visto do espaço, um evento inédito para olhos humanos).

No terceiro dia de viagem, no dia 3 de abril, o astronauta Reid Wiseman tirou o que talvez seja o registro fotográfico mais bonito da missão. Uma foto da Terra em toda sua majestade, à noite, iluminada pela lua; a África destacando-se quase ao centro (com o deserto do Saara bem escancarado), e um lindo azulão de mar do Oceano Atlântico. A parte inferior do continente africano está obscurecido por nuvens, e do outro lado, seu vizinho, a América do Sul, pode ser timidamente vislumbrado. Aumentando a imagem, você pode ver com melhor nitidez uma luz zodiacal no extremo direito inferior do planeta. E nos dois polos, parecendo ambas um rio de esmeraldas correndo nas bordas do planeta, auroras esverdeadas. Tudo realçando a beleza de um lugar que já é lindo o suficiente. Tal é a foto tirada de nosso planeta Terra, chamada «Hello, World».

E sim, ela pode ser considerada como uma atualização de outra captura semelhante, feita há cerca de 50 anos atrás pelo astronauta Harrison Schmitt, tripulante da Apollo 17 — exatamente a última missão da NASA a ir para a Lua. Esta foto, chamada «The Blue Marble», revela a Terra com uma perspectiva que pode-se dizer quase idêntica, porém desta vez o nosso planeta exibe desde o Mar Mediterrâneo, passando pela África, até um Polo Sul coberto por nuvens, e, muito do Oceano Índico.

«Hello, World», Reid Wiseman (Artemis II).

«The Blue Marble», Harrison Schmitt (Apollo 17).


Ver a foto de Reid Wiseman divulgada pela NASA me fez olhar este imenso lar e esquecer todas as infelicidades que andam acontecendo aqui embaixo, como se estivesse com aqueles quatro tripulantes rumando para longe de tudo. Parecia estar desfrutando da bonança após uma tempestade, mas ao mesmo tempo, olhando de longe para a minha terra natal, podia sentir um imenso carinho por ela, e pensar que não conseguia repudiá-la.

Isso mostra o quanto a beleza do nosso planeta e o terno abrigo que nos proporciona, tem forte persuasão sobre nós, seus habitantes. 

Jim Lovell, astronauta do programa Apollo em duas ocasiões, a Apollo 8 (cuja missão fora semelhante a Artemis II) e a Apollo 13, não poderia ter se expressado melhor sobre o nosso planeta, visto assim de longe. Lovell disse que a Terra parecia um enfeite de árvore de Natal azul, pendurado sobre a infinita vastidão escura do espaço sideral.