Certa vez, numa daquelas promoções que a Amazon costuma fazer, descobri um pequeno livro com o qual havia me deparado antes por lá mas logo o esquecera. Chegou então o momento de o comprar e o ler. O livreto intitulado «Os Livros e Você», reúne três artigos do sr. W. Somerset Maugham a princípio publicados no Saturday Evening Post. Em ambos os artigos o escritor recomenda, tecendo breves comentários, alguns daqueles livros que são considerados clássicos da literatura. Então, no primeiro artigo, nos lista clássicos da literatura inglesa; no segundo artigo, trata de clássicos da literatura universal; e, no terceiro e último artigo, trata de clássicos da literatura americana.
Ficou claro o objetivo dos artigos?
Imagine que este que vos escreve fosse um autor conhecido e me incumbissem — algum jornal ou revista — de escrever dois artigos cujo fim fosse recomendar aos seus leitores alguns clássicos da literatura respectivamente do meu país e do mundo afora. E ainda haveria um terceiro artigo, encomendado de última hora pelo editor, me dando a tarefa de recomendar alguns clássicos lusitanos. Então seriam três artigos:
Clássicos da literatura brasileira;
clássicos da literatura universal;
clássicos da literatura lusitana.
É isso que W. Somerset Maugham faz, o seu propósito é alcançar aqueles leitores do Saturday Evening Post que não tem o hábito de ler; como também dar, quem sabe, o empurrãozinho que falta naqueles que tem interesse em iniciar um hábito de leitura e não sabem por onde começar. No caso dos já leitores que porventura fossem leitores da revista, mais seria um papo agradável sobre literatura e uma oportunidade de eventualmente conhecer algum autor ou romance que ainda não tiveram a chance de ler.
O sr. Maugham frisa com veemência que «ler deve ser um prazer». Então seu incentivo junto das recomendações é de ler sem nenhum outro propósito a não ser por prazer.
Contudo um outro e inesperado ponto me chamou atenção no livro: em determinado momento, o escritor britânico recomenda que o leitor salte páginas, isto é, os trechos que seriam maçantes de certas obras, como os contos que se intercalam dentro do enredo de «Dom Quixote»; há também outro exemplo que se trata do julgamento de Dmitri Karamázov, em «Os Irmãos Karamázov». Ambos os exemplos são trazidos pelo autor. E saliento, tais passagens são assim vistas pelo sr. W. Somerset Maugham — este que vos escreve as leu e lerá outra vez com muito prazer.
Enfim, ambas as passagens ele encoraja o pretenso leitor a saltar. Mais uma vez falando de mim, não costumo saltar páginas. Não consigo. Por mais maçante que seja uma passagem — e pasmem! — elas existem aos montes: não as ignoro.
Num romance que aprecio demasiado, estou falando de «Oblómov», de Ivan Gontcharóv, tem-se um longo trecho que arrisco dizer o sr. W. Somerset Maugham saltaria. É o capítulo chamado «O Sonho de Oblómov», em que encontrei uma das passagens mais maçantes que já li num romance. Porém não o saltei, é definitivamente um ato que me recuso a empreender.
Para o sr. Maugham, a ideia de saltar páginas não passa de um cuidado exagerado dele com o pretenso futuro leitor de livros. Deve ter se preocupado de esse leitor sentir tédio com tais trechos «maçantes» e acabar abandonando a leitura e a literatura de uma vez por todas e subitamente. É engraçado ler o escritor dizendo, logo depois de recomendar saltar páginas, ser ele mesmo um mau saltador de páginas. Pelo mesmo motivo, aliás, que este que vos escreve não salta — o medo de perder algum detalhe importante; ou, se não importante mas interessante.
Prefiro assim não saltar nenhuma página, pois não há nada ali que tenha sido escrito para ser ignorado.
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