Sei que os beatlemaníacos fazem um curioso exercício de imaginação. Eles tomam os respectivos discos que os quatro lançaram imediatamente após o fim da banda, e então partindo do repertório de cada disco, catam algumas músicas as quais eles intuem que poderiam estar num suposto álbum dos The Beatles, caso não tivesse acontecido a separação (ou quem sabe decidissem voltar).
Também sei que houve uma conversa entre Paul e John — salvo engano foi gravada — onde Paul tenta acordar quantas músicas cada membro da banda poderia pôr num futuro trabalho inédito do grupo, o qual nunca viria a acontecer. O esquema era: 4 músicas de Paul; 4 músicas de John; 4 músicas de George; e 2 músicas de Ringo (se ele quisesse).
Talvez os beatlemaníacos sigam esse esquema na escolha do repertório do que seria um disco da banda nos anos 1970.
Nunca ouvi um disco sequer do Ringo Starr; mal ouvi o All Things Must Pass, o clássico disco triplo de estreia do George Harrison. O Paul McCartney é o meu beatle favorito, e nos seus discos solo, são onde mais percebo ecos beatlelescos do que em qualquer disco solo de um outro beatle. Já John Lennon, após o fim da banda, lançou também discos formidáveis: vide o John Lennon/Plastic Ono Band e o lendário Imagine.
Nesses discos de John Lennon que mencionei, não ouço nada que me remeta aos The Beatles. Não que os ouça com este intuito, porém é inevitável... Mas, em 1973, um John Lennon caminhando numa direção que o levava para longe de sua amada Yoko acabou levando-o, sutilmente, a caminhar musicalmente em direção ao som do Quarteto de Liverpool.
Posso estar forçando a barra, mas acontece que a sensação ao ouvir tais ecos beatlelescos, como costumo chamar, ou seja, qualquer melodia e harmonia, sons que me remetam ao que seria feito num disco dos The Beatles por um beatle. Acontece que a sensação é muito forte, empolgante, é como uma nostalgia de algo que nunca vivi.
Uma tarde dessas fiquei maravilhado com a audição de um disco que nunca ouvira antes: era o Mind Games, de John Lennon, lançado em 1973, mais precisamente em “One Day (At a Time)” e em “I’m The Greatest” (canção bônus que só aparece na edição remixada). Nestas duas canções tive mais uma vez, e pela primeira vez num disco de John Lennon, a sensação de ouvir esse eco beatlelesco, que noutras ocasiões tanto ouvi nos discos do Paul McCartney.
Não ficarei aqui falando de cada música de Mind Games, nem destacando música tal e música tal do disco.
Mas o que gostaria de dizer é, não sei qual o critério exato adotado pelos beatlemanícos a fim de sintetizar o repertório de um hipotético álbum da banda após os derradeiros Let It Be e Abbey Road. Quanto a mim, após certa quantidade de audições dos discos da maior banda de todos os tempos, pude entre tantas outras coisas perceber o senso de humor que a banda costumava exibir em certas músicas.
Nem falo tanto em termos de letra, falo em termos musicais mesmo. Algumas músicas dos The Beatles parecem uma brincadeira: “Oh! Darling”, “Rocky Raccoon”, “Fixing A Hole”, “When I’m Sixty Four”, “Ob-La-Di Ob-La-Da”, só para citar algumas. Tais músicas, diga-se de passagem, são de sua fase adulta; começando a partir de 1966 com o disco intitulado Revolver. E, olhando esta breve lista, dou-me agora conta de que praticamente todas as canções mencionadas são do Paul...
Na verdade, do Rubber Soul para trás, não recordo de nenhuma música que me dê aquele sentimento de bom humor e brincadeira. Talvez os The Beatles, havendo deixado de levar tudo isso muito a sério, ao mesmo tempo nunca levaram a música tão a sério!