27 de mar. de 2026

Saltando Páginas

         


Certa vez, numa daquelas promoções que a Amazon costuma fazer, descobri um pequeno livro com o qual havia me deparado antes por lá mas logo o esquecera. Chegou então o momento de o comprar e o ler. O livreto intitulado «Os Livros e Você», reúne três artigos do sr. W. Somerset Maugham a princípio publicados no Saturday Evening Post. Em ambos os artigos o escritor recomenda, tecendo breves comentários, alguns daqueles livros que são considerados clássicos da literatura. Então, no primeiro artigo, nos lista clássicos da literatura inglesa; no segundo artigo, trata de clássicos da literatura universal; e, no terceiro e último artigo, trata de clássicos da literatura americana.

Ficou claro o objetivo dos artigos?

Imagine que este que vos escreve fosse um autor conhecido e me incumbissem — algum jornal ou revista — de escrever dois artigos cujo fim fosse recomendar aos seus leitores alguns clássicos da literatura respectivamente do meu país e do mundo afora. E ainda haveria um terceiro artigo, encomendado de última hora pelo editor, me dando a tarefa de recomendar alguns clássicos lusitanos. Então seriam três artigos:

  1. Clássicos da literatura brasileira;

  2. clássicos da literatura universal;

  3. clássicos da literatura lusitana.

É isso que W. Somerset Maugham faz, o seu propósito é alcançar aqueles leitores do Saturday Evening Post que não tem o hábito de ler; como também dar, quem sabe, o empurrãozinho que falta naqueles que tem interesse em iniciar um hábito de leitura e não sabem por onde começar. No caso dos já leitores que porventura fossem leitores da revista, mais seria um papo agradável sobre literatura e uma oportunidade de eventualmente conhecer algum autor ou romance que ainda não tiveram a chance de ler.



O sr. Maugham frisa com veemência que «ler deve ser um prazer». Então seu incentivo junto das recomendações é de ler sem nenhum outro propósito a não ser por prazer.

Contudo um outro e inesperado ponto me chamou atenção no livro: em determinado momento, o escritor britânico recomenda que o leitor salte páginas, isto é, os trechos que seriam maçantes de certas obras, como os contos que se intercalam dentro do enredo de «Dom Quixote»; há também outro exemplo que se trata do julgamento de Dmitri Karamázov, em «Os Irmãos Karamázov». Ambos os exemplos são trazidos pelo autor. E saliento, tais passagens são assim vistas pelo sr. W. Somerset Maugham — este que vos escreve as leu e lerá outra vez com muito prazer.

Enfim, ambas as passagens ele encoraja o pretenso leitor a saltar. Mais uma vez falando de mim, não costumo saltar páginas. Não consigo. Por mais maçante que seja uma passagem — e pasmem! — elas existem aos montes: não as ignoro.

Num romance que aprecio demasiado, estou falando de «Oblómov», de Ivan Gontcharóv, tem-se um longo trecho que arrisco dizer o sr. W. Somerset Maugham saltaria. É o capítulo chamado «O Sonho de Oblómov», em que encontrei uma das passagens mais maçantes que já li num romance. Porém não o saltei, é definitivamente um ato que me recuso a empreender.

Para o sr. Maugham, a ideia de saltar páginas não passa de um cuidado exagerado dele com o pretenso futuro leitor de livros. Deve ter se preocupado de esse leitor sentir tédio com tais trechos «maçantes» e acabar abandonando a leitura e a literatura de uma vez por todas e subitamente. É engraçado ler o escritor dizendo, logo depois de recomendar saltar páginas, ser ele mesmo um mau saltador de páginas. Pelo mesmo motivo, aliás, que este que vos escreve não salta — o medo de perder algum detalhe importante; ou, se não importante mas interessante.

Prefiro assim não saltar nenhuma página, pois não há nada ali que tenha sido escrito para ser ignorado.

23 de mar. de 2026

Fragmentos do Futuro

 


É segunda-feira, 23 de março de 2026, meu primeiro dia de férias; são, aliás, as primeiras que tiro no ano. Costumo dividir os 30 dias a que tenho direito em duas partes. Mas isso não interessa.

Quero dizer que quando não estamos de férias, gostemos ou não do trabalho, ansiamos tanto pelo fim de semana, para tirar um período de descanso, que parece ser essa a razão de acordarmos num dia pensando ser um outro. Mesmo os nossos sonhos parecem contribuir conspirando com o subconsciente para produzir em nós essa sensação.

Em minha semana é frequente acordar na quinta-feira com uma sensação de que aquele dia, é na verdade, já sexta-feira. Naturalmente não é o caso, infelizmente.

Quando lia «O Pesadelo», um texto de Jorge Luis Borges sobre sonhos e sobre o pesadelo em especial, me senti compreendido com a passagem a seguir, pois o método ao qual nosso organismo nos submete e faz produzir essa sensação, é o mesmo expresso por Borges:

«Esta noite dormiremos, esta noite sonharemos que é quarta-feira. E sonharemos com a quarta-feira e com o dia seguinte, com a quinta-feira, talvez com a sexta-feira, talvez com a terça-feira... A cada homem é dada, com o sonho, uma pequena eternidade pessoal que lhe permite ver seu passado próximo e seu futuro próximo.»

20 de mar. de 2026

A Beleza E A Verdade

 




«both were young and passionately intense in their love for beauty»

Clarke Olney, Benjamin Robert Haydon: Historical Painter


De todos os versos que já li até aqui, considero os mais intrigantes e encantadores os dois últimos versos de «Ode on a grecian urn», de John Keats. Eles me fazem entrar num estado de intensa meditação. Fico como que distraído, melancólico, aflito, a cara de quem estaria preocupado com alguma coisa. Confirmo isto ao ouvir minha esposa indagando se está tudo bem comigo. Tudo bem, sim. Apenas estou arrebatado pelo arrebatamento do poeta.

Não dá para acreditar no tempo tão curto mas produtivo em que John Keats concebeu sua obra. Talvez o principal período deste breve tempo sendo entre 1816 e 1820. John Keats começou a escrever suas famosas odes em 1819, por volta de maio. É desse período que surge a «Ode on a grecian urn», ou «Ode sobre uma urna grega». Sabe-se que dois ensaios do pintor inglês Benjamin Robert Haydon, ambos publicados neste mesmo mês de maio de 1819, foram a inspiração central para a composição da ode keatseana. O pintor fora apresentado a Keats em 1816 e desde então ambos mantiveram por um tempo forte amizade, que, no período da composição das primeiras odes (1819) já estava esfriando. O poeta morreria dois anos depois com a amizade entre os dois praticamente desfeita.

Além dos ensaios de Haydon, o contato de Keats com outras obras de arte — certamente ele teve direta ou indiretamente esse contato — pode ter servido para idealizar a Urna do poema. Ao ler os versos da ode, apesar de o eu-lírico fazer pensar que todas as cenas estariam incrustadas na superfície de uma mesma urna, também não seria errado supor terem sido tiradas de diversas peças de arte diferentes.

«A beleza é a verdade», diz John Keats, «a verdade, a beleza». Os versos na tradução de Augusto de Campos me visitam a cabeça, inesperadamente, semelhante uma canção que fica sendo cantada no subconsciente. O verso tem me perseguido; fixou-se em minha memória. Me esquecerei dele algum dia? Há tempos esse «dístico imortal» vem retornando para mim tão voluntariosamente...

Hoje vejo John Keats como um arrebatado contagioso. Pois cada um de seus versos são o reflexo de seus arrebatamentos. Desde momentos com os amigos até encontrar-se estupefato diante de uma obra de arte, ou absorvido pela leitura de um livro. Mas antes de ter a mínima ideia do contexto da ode, pensei que o poeta estaria cansado das grandezas de seu tempo. Mais adequado seria dizer: desiludido delas. E, consciente e sensível das próprias dores antes das dos outros, entendeu que se ele as tem, os outros hão de ter também as suas.




Mas na Urna Grega ele encontra um escape. A Urna o envolve numa redoma onde fica escondido dos sentimentos desagradáveis despertados pela realidade. Encontrar-se-ia de todo entregue ao encanto, ao êxtase, ao alívio, e à felicidade que a Beleza proporciona.

Contemplar o belo e ver nele a plenitude. Acreditar, concluir, enxergar naquilo não apenas o exterior, mas também o interior revelado. A verdade é tão forte, penso agora, porque tanto desfaz quanto enobrece a Beleza.

Tão horrível foi perceber, para Dorian Gray, em meio a sua sublime formosura uma deformidade em seu retrato. A «harmonia do corpo e da alma» que Basil via outrora e refletida em Dorian, fora desfeita pela sua conversão transgressora.

A Beleza pode ser a verdade para os que querem evitar a verdade. Assim tentou o mencionado Dorian Gray com sua vida de dândi e seu hedonismo. Assim tentaram os fariseus nos Evangelhos com seus paramentos religiosos.

Aliás, foi destes que Jesus disse: «Pois que sois semelhantes aos sepulcros caiados» — belíssimos por fora, mas, por dentro, cheios de restos mortais putrefatos.