Quem não tem boa memória não deveria se pôr a mentir. Uma vez que seja levado a repetir diversas vezes a história, não vai lembrar de detalhes antes observados, portanto vai cair em contradição.
Este raciocínio, muito perspicaz, é de Michel de Montaigne.
O mesmo Montaigne que costuma dizer não possuir boa memória. Em «Dos Mentirosos», ensaio encontrado no Livro I de seus «Ensaios», tem-se talvez o texto onde mais menciona esta sua falta, que, segundo ele, tem as suas vantagens e desvantagens. Isso mesmo, disse «vantagens», e vou me ater só a elas. São ao menos duas: esquecer-se das ofensas de que sofrera; e deparar-se com «incessantes novidades» ao reler seus livros. À esta última se une revisitar um lugar.
Quanto a reler, a falta de memória em relação aos livros já lidos constitui de fato num prazer do qual pude desfrutar não uma única vez. Vou esclarecer: quando reli «Por Quem Os Sinos Dobram» e «Grandes Esperanças», respectivamente de Ernest Hemingway e Charles Dickens, não recordava mais de diversos detalhes interessantes de ambas as histórias. As memórias geralmente são genéricas, porém, mesmo nomes de personagens importantes ou acontecimentos marcantes da narrativa me escaparam com o tempo.
Reler é rememorar personagens, suas vidas, seu espírito e situações; os detalhes que o tempo levou ou que não havíamos percebido. O esquecimento também se dá quando das sensações que a leitura de cada livro nos proporciona. Reencontramos velhas coisas como se fossem novidades. Lidamos com elas de modo mais sereno, as enxergamos agora por um prisma mais maduro. Isso seria deparar-se com «incessantes novidades», ao reler seus livros ou revisitar um lugar, como bem expressa o Ensaísta.
Mas é claro que isso não se dá apenas no campo da ficção. Àquele ensaio de Montaigne, por exemplo, o tinha lido ano passado e, quando o li novamente por esses dias percebi que não lembrava nada de seu conteúdo. Talvez de modo vago recordasse o título. Tanto que não posso dizer que foi como um «reencontro» — reencontro com tudo aquilo que apreendi do texto nesta leitura mais recente. É mais certo dizer que foi uma «descoberta».
Para encerrar, quero comentar rapidamente sobre a memória de Montaigne. Ao ler seus «Ensaios», não me parece que o homem tenha memória ruim. Na verdade já ouvi dizer que Michel de Montaigne gosta de afirmar certas coisas de si que não são exatamente como as coloca.
Mas que mentiroso!

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