20 de mar. de 2026

A Beleza E A Verdade

 




«both were young and passionately intense in their love for beauty»

Clarke Olney, Benjamin Robert Haydon: Historical Painter


De todos os versos que já li até aqui, considero os mais intrigantes e encantadores os dois últimos versos de «Ode on a grecian urn», de John Keats. Eles me fazem entrar num estado de intensa meditação. Fico como que distraído, melancólico, aflito, a cara de quem estaria preocupado com alguma coisa. Confirmo isto ao ouvir minha esposa indagando se está tudo bem comigo. Tudo bem, sim. Apenas estou arrebatado pelo arrebatamento do poeta.

Não dá para acreditar no tempo tão curto mas produtivo em que John Keats concebeu sua obra. Talvez o principal período deste breve tempo sendo entre 1816 e 1820. John Keats começou a escrever suas famosas odes em 1819, por volta de maio. É desse período que surge a «Ode on a grecian urn», ou «Ode sobre uma urna grega». Sabe-se que dois ensaios do pintor inglês Benjamin Robert Haydon, ambos publicados neste mesmo mês de maio de 1819, foram a inspiração central para a composição da ode keatseana. O pintor fora apresentado a Keats em 1816 e desde então ambos mantiveram por um tempo forte amizade, que, no período da composição das primeiras odes (1819) já estava esfriando. O poeta morreria dois anos depois com a amizade entre os dois praticamente desfeita.

Além dos ensaios de Haydon, o contato de Keats com outras obras de arte — certamente ele teve direta ou indiretamente esse contato — pode ter servido para idealizar a Urna do poema. Ao ler os versos da ode, apesar de o eu-lírico fazer pensar que todas as cenas estariam incrustadas na superfície de uma mesma urna, também não seria errado supor terem sido tiradas de diversas peças de arte diferentes.

«A beleza é a verdade», diz John Keats, «a verdade, a beleza». Os versos na tradução de Augusto de Campos me visitam a cabeça, inesperadamente, semelhante uma canção que fica sendo cantada no subconsciente. O verso tem me perseguido; fixou-se em minha memória. Me esquecerei dele algum dia? Há tempos esse «dístico imortal» vem retornando para mim tão voluntariosamente...

Hoje vejo John Keats como um arrebatado contagioso. Pois cada um de seus versos são o reflexo de seus arrebatamentos. Desde momentos com os amigos até encontrar-se estupefato diante de uma obra de arte, ou absorvido pela leitura de um livro. Mas antes de ter a mínima ideia do contexto da ode, pensei que o poeta estaria cansado das grandezas de seu tempo. Mais adequado seria dizer: desiludido delas. E, consciente e sensível das próprias dores antes das dos outros, entendeu que se ele as tem, os outros hão de ter também as suas.




Mas na Urna Grega ele encontra um escape. A Urna o envolve numa redoma onde fica escondido dos sentimentos desagradáveis despertados pela realidade. Encontrar-se-ia de todo entregue ao encanto, ao êxtase, ao alívio, e à felicidade que a Beleza proporciona.

Contemplar o belo e ver nele a plenitude. Acreditar, concluir, enxergar naquilo não apenas o exterior, mas também o interior revelado. A verdade é tão forte, penso agora, porque tanto desfaz quanto enobrece a Beleza.

Tão horrível foi perceber, para Dorian Gray, em meio a sua sublime formosura uma deformidade em seu retrato. A «harmonia do corpo e da alma» que Basil via outrora e refletida em Dorian, fora desfeita pela sua conversão transgressora.

A Beleza pode ser a verdade para os que querem evitar a verdade. Assim tentou o mencionado Dorian Gray com sua vida de dândi e seu hedonismo. Assim tentaram os fariseus nos Evangelhos com seus paramentos religiosos.

Aliás, foi destes que Jesus disse: «Pois que sois semelhantes aos sepulcros caiados» — belíssimos por fora, mas, por dentro, cheios de restos mortais putrefatos. 

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