Certa vez o Rui C., um lusitano de Braga e voraz leitor que acompanho no «X», perguntou-se num post: qual critério um leitor usa para escolher a leitura seguinte?
A pergunta tinha um ar de curiosidade irrespondível e divertida. O Rui C. assim manifestou-se porque pretendia ler um livro A mas acabou pegando um livro, sei lá, um livro Y para ler.
Isso envolve um pouco do paradoxo das listas. Coisinha que inventei e não é nada demais. O primeiro problema das listas é que, quando vamos fazer uma lista, (quase) sempre nos dá um branco. Se pedem de mim algum «Top 5» de livros ou músicas, qualquer coisa, me dá um verdadeiro branco.
O segundo problema é quando conseguimos elaborar a lista. Imagine aquelas listas que representam metas, principalmente se for de leituras. Nunca as consigo cumprir, sou um exímio violador de listas. Se elas são como um tipo de constituição do que quer que seja, então sou um criminoso.
Numa ocasião, quando estava terminando de ler «Todas As Almas», de Javier Marías, lembro que este volume era parte de uma lista mental — coisa que costumo fazer com frequência — que havia elaborado. Este livro seria seguido pela leitura de «Tempos Difíceis», de Charles Dickens; depois leria «A Taberna Ambulante», de G. K. Chesterton.
Sendo que o livro do Javier Marías intentara ler na sequência de outra leitura, coisa que não fiz, pois fui ler o «Ócio & Contemplação», de Josef Pieper, para só depois ler o Javier Marías. Isto é, após uma «infração» à minha lista mental — que novidade!
Enfim, quando terminei o «Todas As Almas», pensa que peguei o Dickens ou pelo menos o Chesterton mencionados agora pouco e sequências da minha então mais atual lista mental de leitura? Não! Por algum motivo fui no extremo oposto da estante, onde estão concentrados todos os calhamaços, e peguei o «Doutor Fausto» de Thomas Mann. Logo já o estava lendo.
Parece que sou um leitor assistemático e, cumprir o itinerário de um lista elaborada seja na minha cabeça ou materializada no papel, é coisa impossível. Pelo menos em parte.
Listas, notas, rabiscos, marcar páginas[1], para mim não passam (quase) sempre de intenções nunca realizadas.
[1] Só marco páginas com «marcador de páginas», a fim de continuar a leitura de onde parei noutro momento. Há quem, para deixar permanentemente uma página marcada, dobre o canto extremo-externo superior ou inferior da página — formando uma «orelinha». Também existe, para marcar páginas, aqueles post-its coloridos e multiformes encontrados em quaisquer papelarias que se prezem.
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